Há cerca de dez minutos, quando conversava com a Ibê sobre a vida em geral e a tese em particular, informei-a de que não iria ao Challenges este ano.
O Challenges é, para os alunos de MMEd, uma espécie de Fátima para os católicos: ano sim, ano não, a turma em peso ruma a Braga para defender um artigo e/ou apresentar um poster. Este ano, ao contrário do que é costume não farei parte da comitiva: a data da conferência coincide com o meu aniversário de casamento, o décimo.
Ao ler isto (a conversa foi via msn, as usual), responde ela: "Epa, dez anos é bué!!!". E, ao meu: "É, não é?", responde ela no seu tom habitual: "Yap, uma maratona!!"
E é mesmo. Um casamento - como qualquer relacionamento que se pretenda longo - não é um sprint, nem uma prova de meia dúzia de metros. É uma maratona, uma prova de resistência: se gastarmos toda a força no início, se não soubermos gerir o esforço, faltar-nos-á energia no final.
E isto - de pensar no casamento - fez-me pensar na tese, e em todos os projectos a longo prazo em que nos metemos ao longo da vida: normalmente, começamos com entusiasmo e força e garra, num estado de paixão e envolvimento que parece conseguir arrastar este mundo e o outro.
Nesta altura, "there's no mountain high enough, there's no river wide enough", e tudo parece simples e fácil de resolver. Depois, surgem os problemas pequenos que se tornam grandes, os grandes que se tornam enormes, os enormes que se tornam tragédias quase gregas. E, depois, vem a fase mais delicada e muitas vezes inultrapassável: a apatia. O "para quê, porquê?", o "isto não vale a pena", o "ai mãe".
Esta é, sem dúvida, a pior fase. Aquela em que, se não tivermos força ou apoio, corremos o risco de nunca mais conseguir sair. O atoleiro. Um Emyn Muil, mas sem Gollum ou Smeagol que nos valha.
A experiência que tive no mestrado permitiu-me identificar esta fase, quando reapareceu agora no doutoramento. E, com a sabedoria da idade e da experiência, fiz como disse um senhor que escutei há muitos anos: parei, olhei e soube como continuar.
Este senhor (com uma sabedoria e idade muito superiores à minha) disse um dia o seguinte: "quando eu era mais novo e me aparecia um saco de cimento no caminho, tentava por tudo pegar nele e empurrá-lo e tirá-lo do caminho. Agora, que sou mais velho, olho para o saco. E se vejo que é demasiado pesado e não vale o esforço, dou a volta e continuo em frente".
A tese (tal como o casamento e os compromissos a longo prazo) é uma maratona cheia de curvas, de altos e baixos e obstáculos, e há alturas em que nos aparecem sacos de cimento à frente.
Cabe-nos a nós, com a serenidade e experiência que nos dá a vida, sabermos se vale a pena empurrar o saco ou contorná-lo. Saber se o tempo que perdemos a olhar para aquele detalhe é tempo bem empregue ou se, na verdade, aquilo é apenas e só um pequeno contratempo. E, sobretudo, cabe-nos a nós conseguir encontrar o equilíbrio entre o entusiasmo e a paixão dos primeiros dias, as dores do tempo presente e a satisfação futura de termos conseguido construir algo importante.
E é isto. Bom fim-de-semana :).
(post dedicado à Ibê, que anda à nora com os questionários :P)
e andamos nós a criar uma filha para ist