No dia 18 de Outubro de 2004, num outro espaço, escrevi isto:
"copy paste
ultimamente passo mais tempo em frente ao monitor que em frente às pessoas... o meu dia-a-dia pode traduzir-se em cinco a seis linhas... todas em arial 10, espaçamento simples, sem tabulações.
dou por mim a concluir que se a vida fosse uma sucessão de copy-paste, tudo seria mais simples...
claro que esta conclusão não surgiu do nada... tem a sua origem no exame de sábado*, onde mais que nunca senti falta do meu computador (é incrível com a pessoa se desabitua a escrever com a caneta... o que eu dava nessa altura pelo meu monitor e o meu teclado...). após essa manhã extraordinária, apercebi-me que se pudesse fazer "undo" a uma série de factos e acontecimentos na minha vida, tudo seria mais simples. ok, menos emocionante, mas definitivamente mais simples...
no mundo de hoje, cada vez mais a vida está organizada como num ambiente "windows" - separamos o trabalho da vida de casa (em pastinhas diferentes, para não misturarmos as coisas...), separamos os amigos da família (estão dentro da mesma pasta, mas em sub-pastas diferentes), separamos amores antigos do amor presente...
colocamos coisas no "lixo", mas nunca as apagamos... ou criamos uma pasta "lixo para rever", onde colocamos alguns factos passados, à espera do momento em que nos decidamos a apagar de vez certas coisas... (essa minha pasta está cada vez mais cheia... já ocupa demasiado espaço em disco).
e, de vez em quando, como alguém me disse uma vez, fazemos um reset... e volta tudo ao princípio, os temporários apagam-se, o sistema fica limpo... ou seja, ficamos com a tela em branco para podermos riscar e apagar de novo...
sim, cada vez mais nos parecemos com realidades virtuais... gostamos das vozes que nunca ouvimos, temos fotos de pessoas que nunca conhecemos, criamos nicks e alter-egos para nos darmos a conhecer ao mundo...
não sei se esta situação será perigosa, mas é certamente um "case-study" digno de interesse..."
*exame de TCED, dado pelo Carlos, num auditório e sem acesso a computador :P
Um dos pontos-chave dos meus trabalhos de doutoramento é a definição de um modelo que me permita a análise da presença online/identidade online dos indivíduos - uma coisa que não tinha previsto (modelos de análise há-os para todos os gostos e finalidades) mas que, aos poucos, se foi tornando mesmo importante.
Sendo a minha amostra uma amostra por conveniência - alunos do MCMM, de duas turmas/anos diferentes - o modelo terá, com toda a certeza, algumas limitações... mas vamos indo e vamos vendo :). Para já, e depois de analisar os dados recolhidos pelas entrevistas, tenho percebido que:
- na rede, existem dois grandes tipos de "identidade": as que se orientam pelo contexto, e as que se orientam pelo utilizador;
- é possível identificar alguns padrões ao nível da construção da identidade;
- existe, efetivamente, uma consciência relativamente à exposição e visibilidade dos conteúdos publicados e às implicações que estes têm na construção de uma reputação "digital".
Quer se opte por uma representação mais orientada para o contexto - filtrando conteúdos de acordo com a plataforma utilizada, gerindo os contactos, adotando (ou não) medidas mais apertadas ao nível da privacidade e da gestão da identidade digital - ou para o utilizador - publicando conteúdos independentemente do espaço -, os indivíduos estão, efetivamente, a construir na rede uma presença que reflete os seus interesses, experiências, e que poderá ter - ainda que não o percebam - um grande impacte no seu futuro enquanto alunos, investigadores, profissionais. Estão, na rede, a construir uma identidade que reflete o seu percurso enquanto apredentes e indivíduos, o que torna - na minha opinião - a temática da identidade online uma temática de grande interesse e pertinência.
Hoje, na rede, fala-se da Internet segura, da proteção das crianças e jovens, da privacidade e da segurança. Pontos importantes, certo. Os alicerces, diria até, para o que poderá ser um dia uma reflexão sobre coisas mais complexas, quando o "real" e o "digital" já não duas dimensões distintas mas uma única forma de estar.
Gostava de poder discutir estes assuntos - da privacidade, da reputação, do contexto - com mais pessoas. Alguém está interessado em partilhar um chá (com ou sem biscoitos) ao final do dia, enquanto conversamos sobre estas coisas? :)
(O título deste post está "entre aspas" porque a ideia não é minha mas do Carlos, e está bem explicada no post que escreveu há dias. Contudo, e ao ler o que o Carlos escreveu, não consegui deixar de pensar e retomar uma questão que me vem ocupando o espírito há algum tempo: para que uso eu o Facebook? E o Twitter? E o SAPO Campus? E as outras redes onde estou a construir a minha identidade?)
Há uma ou duas semanas atrás delineei aquilo que seria uma proposta para um workshop (a ter lugar numa conferência que irá decorrer em 2012) sobre Identidade Digital e Reputação. Como não li o Call até ao fim, acabei por estar a trabalhar para o boneco e por não enviar nada. Fiquei, contudo, com um documento estruturado onde, em duas ou três ações, procurava incentivar os outros (e eu própria) a refletir sobre o que fazemos com/nos diferentes espaços por onde andamos.
Os passos eram simples, e resumem-se em duas ou três linhas:
- ponto de situação sobre a nossa presença online (onde estamos, em que espaços, com que finalidade usamos cada serviço/plataforma);
- partilha do resultado do exercício anterior + exercício de auto-reflexão: onde estou agora na rede (que perfil/identidade estou a construir) e onde gostaria de estar daqui a uns 3-5 anos;
- o que fazer (em termos de identidade na rede) para chegar lá.
Dito assim parece idiota, mas o draft era detalhado e em inglês até tinha pinta. Anyway, foi um exercício que me ocupou algumas horas e me deu uma boa dor de cabeça, na medida em que me levou a pensar naquilo que faço em cada um dos meus espaços e a repensar na identidade que ando a construir na rede.
Questionei-me, por exemplo, sobre o sentido de manter um blog pessoal quando este espaço, que era para ser académico, já tem textos sobre casacos e projetos e desenhos. Questionei-me sobre a importância dos contactos que tenho no meu FB, e pensei sobre o que me disse um dia a Sara Batalha quando afirmou que a gestão da nossa rede de contactos é de extrema importância, e que é nela e por ela que definimos a nossa área de influência.
Pensei nisso tudo. E pensei no que aconteceu há dias, quando um vídeo feito por uma aluna e divulgado pelo Carlos passou, em poucas horas, de poucas para imensas visualizações. Na forma como a identidade que construímos na rede - e que eu defendo também ser definida pela nossa rede de contactos e pela forma como, através dela, conseguimos divulgar e projetar o nosso trabalho de formas que por vezes não conseguimos prever - pode ser utilizada não apenas para socializar mas para construir uma reputação em termos profissionais.
Pensei nisto tudo. Pensei como, às vezes - e como diz o Eminem :P - basta uma oportunidade, uma única oportunidade, para fazermos a diferença.
E pensei que seria giro, fazer um dia um workshop onde se falasse e refletisse sobre estas coisas. Se alguém se quiser juntar a mim na conversa (que pode ser 2.beer, 2.tea ou 2.hotChocolate)... o desafio está lançado :)
*o post foi editado de forma a estar de acordo com o novo acordo (com o qual não concordo, mas é assim a vida...)
e andamos nós a criar uma filha para ist