Um dia irei ter apenas um endereço de e-mail. Um dia, usarei apenas um computador para trabalhar. Um dia não terei de pensar se sou yahoo, gmail, hotmail, ua ou afins.
Este "manifesto", à partida um pouco incompreensível, tem um fundamento lógico: tenho andado a ler a tese de doutoramento da senhora Boyd (Faceted Id/entity, 2002) :P.
Nesse extenso e interessantíssimo documento, Boyd reflecte sobre a questão da socialização, da importância do contexto, da auto-consciência, da gestão da identidade nas interacções sociais... e sobre a importância do utilizador ser "dono" da sua identidade na rede - perspectivas interessantes para quem anda a desenhar novos sistemas ;)
Boyd defende que a identidade do indivíduo não é, como outros autores afirmam, inerentemente fragmentada: diz, sim, que nos diversos ambientes sociais em que se move, o indivíduo gere as múltiplas facetas da sua identidade, ajustando-as ou moldando-as de acordo com o contexto.
Diz, ainda, que esta multiplicidade de facetas não indicia o colapso do indivíduo mas antes mostra o controle que este possui sobre a forma como se apresenta no dia-a-dia.
Contudo, em ambiente online, as coisas ficam mais delicadas: num universo em que os contextos se diluem e em que toda a informação e impressões sobre determinado indivíduo podem ser recuperadas com um simples search, a gestão e o controle da identidade tornam-se dimensões indispensáveis para o bem-estar do indivíduo e para o estabelecimento de interacções sociais, agora quase descontextualizadas.
Ainda de acordo com Boyd, um dos mecanismos de controle quase inconscientemente adoptados pelos utilizadores foi a criação de múltiplas contas de e-mail. Uma vez que a associação de dados e informação terá por base, na maior parte das vezes, a agregação por contas de e-mail ou nomes, os indivíduos criam contas associadas a contextos particulares (o exemplo mais óbvio será a separação entre o endereço de e-mail pessoal e profissional).
Pela gestão destas múltiplas contas, voltam - de certa forma - a ganhar algum controle e privacidade, criando uma espécie de "localização virtual":
"By mantaining multiple accounts, users associate context locally. In other words, (...) one can mantain an accout that represents a specific face and present oneself throug that." (Boyd, 2002:42)
Não subscrevo inteiramente mas entendo e aceito esta perspectiva: se com a minha família sou a Quinha "boa onda" mas que vai dos zero aos cem em 4.3 segundos, no trabalho sou Mónica correcta e controlada.
Na rede, as coisas passa-se de forma idêntica: embora seja maresta para todos, o código é diferente de acordo com o interlocutor.
Como me articulo entre ambientes demasiado formais e outros quase informais, uso diferentes contas para diferentes contextos. Isto permite-me fazer não apenas a gestão da identidade mas também a organização das mensagens e interacções (e evita andar sempre a reclamar por ter muitos e-mails para ler - dividir para conquistar, right? :P)
Gostei de ler esta tese, confesso. Primeiro, porque fiquei mais descansada quanto ao potencial esquizofrénico da minha identidade. Depois, porque percebi ainda mais a lógica e a justificação por detrás de um projecto como o do SAPO CAmpus, que pretende integrar, numa única plataforma e com uma única "identidade", um conjunto de recursos sem os quais já não conseguimos passar.
Yep... one day, we all will stand together :)
e andamos nós a criar uma filha para ist