Sexta-feira, 18 de Novembro de 2011

Primeiro foi um post da Marta, no Facebook, com a ligação a um texto do Edson Athaide e do qual tomei a liberdade de selecionar uns parágrafos:

“Na tasca, a mesa ao lado é um coral de alarvidades. Uns gritam “Cão estúpido!”, outros gargalham, deixando ver entre os dentes os vestígios da ceia. Na TV, a repórter conta a história de um cão, em Rio de Mouro, que há semanas não sai da porta de um centro de saúde, a aguardar o regresso da dona (que, entretanto, morreu). 
Ok, cães chorosos podem ser piegas, mas o que haveria de tão ofensivo naquele relato a ponto de provocar tal rechaça nos presentes? Tristes tempos. Não nos emocionamos mais com as mazelas do homem, nem com as do melhor amigo do homem.
Assim, como que não quer nada, a insensibilidade vai se tornando o novo oxigénio (como o cinismo que expelimos no gás carbónico). Claro, há por aí, muitas pessoas sensíveis (várias delas escondidas, mascaradas de indiferentes). Porém, o bonito agora é mostrar-se inflexível, impenetrável, impermeável (boas qualidades para um chapéu de chuva, mas muito aquém daquilo que, há tempos, se considerava humano).

(...)

Deixou de haver a obrigação de ser gentil com o velhote empregado de mesa, com a caixa de supermercado de olhos tristes, com a senhora reformada que trabalha como mulher-a-dias para complementar o parco orçamento (aliás, já nem as mães e avós gozam de direitos garantidos no que toca a gentilezas). E, meu Deus, como hoje é caro dizer “bom dia”.
Precisava ser assim? Se a insensibilidade passou a ser um objectivo comum, vale lembrar que não há pessoa mais insensível do que um cadáver. Estamos a morrer antes do tempo.
Não sei como vai terminar a história, mas o rafeiro da linha de Sintra, na sua fidelidade canina, serve para nos recordar que, até mesmo enquanto animais, estamos a aceitar fasquias muito baixas.
Ou como diria o meu Tio Olavo: “Tire a sua insensibilidade do caminho que a minha poesia pretende passar”.

 

Depois, foi um link partilhado pela Sílvia, onde o JN contava o desfecho da história do "cão fiel": "Cão que esperou dias pela dona à porta do Centro de Saúde foi adoptado"

E depois foi este vídeo partilhado pelo Jorge:

 

 

E isto fez-me sentir bem.

Porque acredito que há bondade no coração das pessoas. Porque acredito que há pessoas más, mas também acredito que há pessoas boas, com força e vontade suficientes para mudar o mundo, nem que seja um bocadinho de cada vez.

Se quisermos, conseguimos.

Bom fim-de-semana!


Arquivado em: ,


Segunda-feira, 14 de Novembro de 2011

 (texto escrito em Setembro, ainda antes da revolução orçamental, e publicado no jornal UniverCidade)

 

Parte I

Recordo-me ainda – embora tenha sido há quase vinte anos – do meu primeiro dia de aulas enquanto aluno da UA. Passei-o em frente a um armário para vassouras, no antigo CIFOP, convencida que aquela era a porta da sala onde deveria ter a minha primeira aula: durante horas eu e alguma colegas aguardámos, pacientemente, pela chegada do professor ou por alguém que trouxesse a chave para abrir a porta e podermos entrar.

Não sei bem em que altura percebemos que aquela porta não ia dar a lado nenhum – a não ser a um conjunto de esfregonas, baldes e vassouras – ou se foi alguém que nos disse que aquela não era propriamente uma sala de aulas. Mas sei que fiquei meio envergonhada meio danada com o facto de ter perdido uma manhã inteira de aulas e, mais ainda, com o sistema de numeração de salas e departamentos que a Universidade de Aveiro tinha decidido adoptar. Uma manhã de aulas. Uma manhã inteira de aulas.

Se não podia ter perguntado a alguém, indagado se a sala era realmente aquela? Podia. Mas transpirava caloirice por todos os poros e peças de vestuário, não havia (não é “não tinha”, é “não havia”, mesmo) telemóveis, nem twitter, nem facebook, nem nada. Quem queria saber perguntava. Quem não queria perguntar ficava assim, parado. Frente a um armário de vassouras, à espera que a vida acontecesse.

 

Parte II

Há um vídeo que tem corrido na Internet e que já tem mais de 360 mil visualizações. E não, não é o vídeo do Hélio (embora eu suspeite que, a este outro rapaz, o medo também seja uma coisa que “a ele não assiste”). Falo do vídeo do Prós e Contras, de 20 de Junho de 2011, onde o Miguel Gonçalves – numa intervenção no mínimo cativante – fala sobre o futuro, a empregabilidade, a experiência, os cursos e o mercado de trabalho. São cerca de 15 minutos cheios de ideias, de relatos de experiências, de afirmações feitas com convicção e certeza, 15 minutos que me deixaram a pensar que, realmente, a vida é feita de pequenas metas.

No entanto, e apesar de ter gostado do que vi, não posso concordar com tudo o que é dito pelo Miguel. Já trabalhei em muitos sítios, já passei por algumas empresas, e nesse percurso lidei com muitos tipos de pessoas: pessoas que reconhecem o valor de quem trabalha, pessoas que se preocupam apenas com o que terão de pagar pelo trabalho, pessoas que querem o melhor serviço ao menor preço. Pessoas que souberam engolir o orgulho e pessoas que o atiraram à cara dos outros, gratuitamente. Pessoas excessivamente conservadoras e pessoas com visão. Ele – o Miguel – conhece uma face da moeda, eu conheci outra. É a vida, neste caso a minha.

Mas não posso deixar de concordar com o que ele diz, quando afirma que um emprego precário não é um emprego que não dá garantias financeiras mas antes um emprego que não nos permite crescer. Quando diz que, cada dia, temos de trabalhar para evoluir. Para ficarmos mais perto daquilo que queremos ser.

 

Parte III

A experiência do meu primeiro dia de aulas na UA ensinou-me muita coisa, embora eu só me tenha apercebido disso muito mais tarde. Ensinou-me que não podemos ficar à espera que as coisas venham ter connosco, que nos temos de mexer, de nos envolver, de participar. De fazer parte de associações, de nos integrarmos em comunidades, de construirmos um percurso que – ainda que não saibamos bem onde vai dar – nos vai deixar mais perto daquele que pode ser o momento de viragem das nossas vidas.

Vivemos num tempo onde o imediatismo e a rapidez dos resultados são muito valorizados, muitas vezes até sobrevalorizados. Habituámo-nos a passar pela vida como quem sobe umas escadas, sempre a pensar onde queremos chegar e a contar os degraus que faltam para alcançarmos esse “onde”. E esquecemo-nos, nessa pressa, de ver que cada degrau vale por si. Que cada pedaço da nossa vida é uma experiência que nos leva a outra. Que cada linha do nosso CV - curriculum vitae, percurso de vida – não é só “mais uma linha”, mas é o resumo de uma experiência. Que nos ensinou algo, ou onde ensinámos algo. Que nos levou à linha seguinte. Que nos fez subir mais um degrau. Que nos deixou mais perto do patamar onde estamos hoje.

E a quem me diz “para ti é fácil falar, estás bem na vida”, sorrio. Porque já passei a barreira dos trinta e (já) não estou nos quadros de uma empresa. Porque não tenho um futuro certo. Porque estou num projeto de dois anos, sem saber muito bem o que irei fazer a seguir. Porque, numa altura em que nos dizem – e nós sabemos que é verdade – que o dinheiro custa mais que muito e temos de poupar e armazenar, e que um emprego certinho é tudo, decidi arriscar e investir na minha formação académica.

É um risco? É. Oh, se é. Mas é um risco consciente, e assumido. Porque fiz escolhas e agora estou a fazer o que gosto. E  estou mais perto daquilo que quero ser um dia.




Quinta-feira, 3 de Novembro de 2011

Um chá. Quente. Numa chávena que aquece primeiro os dedos, depois o sangue, e por fim a alma.

O aroma da cidreira ou dos frutos vermelhos - não importa. É cheiro, é calor, é pedaço da natureza que está lá fora e que - felizmente ? - os vidros não deixam entrar junto com a chuva e o frio.

E o frio... ah, o frio. Pouco, suficiente, daquele que é fresco sem ser gelo e que arrepia sem fazer tremer. Meias, de lã, dos pés até aos joelhos. E uma manta quente. Vermelha, como só o calor consegue ser.

 

Um livro? Pode ser. Mas só se não tiver figuras, porque o chá e o frio e as meias e a manta fazem nascer desenhos nos meus olhos e eu não quero esses desenhos - os do chá e do frio, que são meus - misturados com os desenhos de outros que não estão aqui, sentados comigo. 

Música? Não preciso :). Basta-me o som da água que o céu dá e o respirar lento, baixo e suave da fada que me descansa e que descansa no meu colo.

E isto é tudo o que eu preciso. E isto é tudo o que me faz feliz.


Arquivado em: , ,


 Mas gosto disto :)

 

 

 

Maybe I'm in the black, Maybe I'm on my knees
Maybe I'm in the gap between the two trapezes
But my heart is beating and my pulses start
Cathedrals in my heart


Arquivado em: ,


Sobre mim
Agosto 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29
30
31


Artigos recentes

Das férias

A vida à superfície

Saudades

Questão de investigação

Sobre o (meu) amor

Inquietudes

A história de dois Miguéi...

O que podemos aprender co...

Hoje que é dia do pai...

sobre aprender

Arquivo

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Março 2011

Janeiro 2011

Novembro 2010

Outubro 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Arquivado em

a idade pesa

a melhor coisa do mundo

acreditar

adeus :)

ambientes online

amigos

amor

ano novo

aprender

assim vale a pena

boyd

cetac

chuva

coisas minhas

coisas soltas

context

contexto

cv

d'a caixa

definir prioridades

dia do pai

domingo

doze

e andamos nós a criar uma filha para ist

ece1

ece11

educação

facebook

férias

festival da canção

futebol

gene kelly

homens da luta

identidade

identity

if/then

jonsi

leituras

livros

lurking

maio

mariana

metas

mmed

mundanças

música

networking

obvious

outono

palco

pele

percursos

phd

ple_sou

prensky

problemas

quarta-feira

quinta-feira

rede

reflexões

sapocampus

segunda-feira

servidor blogs.ca.ua.pt

sexta-feira

som

sono

sportv

stress deadlines going_nuts

tela em branco

televisão

tempo

terça-feira

tese

twitter

univercidade

todas as tags

links
participar

participe neste blog

find me on twitter:
http://qrcode.kaywa.com/img.php?s=6&d=http%3A%2F%2Ftwitter.com%2F%23%21%2Fmaresta
blogs SAPO
subscrever feeds