Segunda-feira, 14 de Novembro de 2011

 (texto escrito em Setembro, ainda antes da revolução orçamental, e publicado no jornal UniverCidade)

 

Parte I

Recordo-me ainda – embora tenha sido há quase vinte anos – do meu primeiro dia de aulas enquanto aluno da UA. Passei-o em frente a um armário para vassouras, no antigo CIFOP, convencida que aquela era a porta da sala onde deveria ter a minha primeira aula: durante horas eu e alguma colegas aguardámos, pacientemente, pela chegada do professor ou por alguém que trouxesse a chave para abrir a porta e podermos entrar.

Não sei bem em que altura percebemos que aquela porta não ia dar a lado nenhum – a não ser a um conjunto de esfregonas, baldes e vassouras – ou se foi alguém que nos disse que aquela não era propriamente uma sala de aulas. Mas sei que fiquei meio envergonhada meio danada com o facto de ter perdido uma manhã inteira de aulas e, mais ainda, com o sistema de numeração de salas e departamentos que a Universidade de Aveiro tinha decidido adoptar. Uma manhã de aulas. Uma manhã inteira de aulas.

Se não podia ter perguntado a alguém, indagado se a sala era realmente aquela? Podia. Mas transpirava caloirice por todos os poros e peças de vestuário, não havia (não é “não tinha”, é “não havia”, mesmo) telemóveis, nem twitter, nem facebook, nem nada. Quem queria saber perguntava. Quem não queria perguntar ficava assim, parado. Frente a um armário de vassouras, à espera que a vida acontecesse.

 

Parte II

Há um vídeo que tem corrido na Internet e que já tem mais de 360 mil visualizações. E não, não é o vídeo do Hélio (embora eu suspeite que, a este outro rapaz, o medo também seja uma coisa que “a ele não assiste”). Falo do vídeo do Prós e Contras, de 20 de Junho de 2011, onde o Miguel Gonçalves – numa intervenção no mínimo cativante – fala sobre o futuro, a empregabilidade, a experiência, os cursos e o mercado de trabalho. São cerca de 15 minutos cheios de ideias, de relatos de experiências, de afirmações feitas com convicção e certeza, 15 minutos que me deixaram a pensar que, realmente, a vida é feita de pequenas metas.

No entanto, e apesar de ter gostado do que vi, não posso concordar com tudo o que é dito pelo Miguel. Já trabalhei em muitos sítios, já passei por algumas empresas, e nesse percurso lidei com muitos tipos de pessoas: pessoas que reconhecem o valor de quem trabalha, pessoas que se preocupam apenas com o que terão de pagar pelo trabalho, pessoas que querem o melhor serviço ao menor preço. Pessoas que souberam engolir o orgulho e pessoas que o atiraram à cara dos outros, gratuitamente. Pessoas excessivamente conservadoras e pessoas com visão. Ele – o Miguel – conhece uma face da moeda, eu conheci outra. É a vida, neste caso a minha.

Mas não posso deixar de concordar com o que ele diz, quando afirma que um emprego precário não é um emprego que não dá garantias financeiras mas antes um emprego que não nos permite crescer. Quando diz que, cada dia, temos de trabalhar para evoluir. Para ficarmos mais perto daquilo que queremos ser.

 

Parte III

A experiência do meu primeiro dia de aulas na UA ensinou-me muita coisa, embora eu só me tenha apercebido disso muito mais tarde. Ensinou-me que não podemos ficar à espera que as coisas venham ter connosco, que nos temos de mexer, de nos envolver, de participar. De fazer parte de associações, de nos integrarmos em comunidades, de construirmos um percurso que – ainda que não saibamos bem onde vai dar – nos vai deixar mais perto daquele que pode ser o momento de viragem das nossas vidas.

Vivemos num tempo onde o imediatismo e a rapidez dos resultados são muito valorizados, muitas vezes até sobrevalorizados. Habituámo-nos a passar pela vida como quem sobe umas escadas, sempre a pensar onde queremos chegar e a contar os degraus que faltam para alcançarmos esse “onde”. E esquecemo-nos, nessa pressa, de ver que cada degrau vale por si. Que cada pedaço da nossa vida é uma experiência que nos leva a outra. Que cada linha do nosso CV - curriculum vitae, percurso de vida – não é só “mais uma linha”, mas é o resumo de uma experiência. Que nos ensinou algo, ou onde ensinámos algo. Que nos levou à linha seguinte. Que nos fez subir mais um degrau. Que nos deixou mais perto do patamar onde estamos hoje.

E a quem me diz “para ti é fácil falar, estás bem na vida”, sorrio. Porque já passei a barreira dos trinta e (já) não estou nos quadros de uma empresa. Porque não tenho um futuro certo. Porque estou num projeto de dois anos, sem saber muito bem o que irei fazer a seguir. Porque, numa altura em que nos dizem – e nós sabemos que é verdade – que o dinheiro custa mais que muito e temos de poupar e armazenar, e que um emprego certinho é tudo, decidi arriscar e investir na minha formação académica.

É um risco? É. Oh, se é. Mas é um risco consciente, e assumido. Porque fiz escolhas e agora estou a fazer o que gosto. E  estou mais perto daquilo que quero ser um dia.




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