"Slumdog millionaire"
Não gostei do filme. Não me cativou a história. Não me tocou a música. Não me enterneci com os meninos de rua, não chorei com os amores puros e menos puros, não me emocionei com o final. Vi o filme como quem vê uma revista, detendo os olhos nas figuras ou letras mais chamativas e esquecendo, quando as páginas se fecham, quase tudo o que me entreteve por segundos.
"Quase". Porque do filme - que não voltei a ver - retive duas coisas: a primeira, que um mundo sem cor - das especiarias, dos tecidos, do sol e do sangue - seria um lugar impossível de respirar; a segunda, que a vida é feita de pequenos nadas que, quando juntos, se tornam tudo.
Habituamo-nos a passar pela vida como quem sobe umas escadas, sempre a pensar onde queremos chegar e a contar os degraus que faltam para alcançarmos esse "onde".
E esquecemo-nos, nessa pressa, de ver que cada degrau vale por si. Que cada pedaço da nossa vida é uma experiência que nos leva a outra. Que nós somos aquilo que vivemos e que, por isso, somos únicos.
Que cada linha do nosso CV - curriculum vitae, percurso de vida - não é só "mais uma linha", mas é o resumo de uma experiência. Que nos ensinou algo, ou onde ensinámos algo. Que nos levou à linha seguinte. Que nos fez subir mais um degrau. Que nos deixou mais perto do patamar onde estamos hoje.
Temos tendência para desvalorizar as coisas pequenas e atribuir demasiada importância àquilo que só ocupa espaço. Contabilizamos os projectos em que nos envolvemos como números, e não como experiências. E dizemos "é mais uma linha no currículo" como se estivéssemos a falar de um nada que só irá ocupar espaço num documento de duas páginas.
A vida é feita de pequenas coisas, nós somos feitos de pequenas coisas. E, quando cada experiência é uma linha no currículo, resta saber o que queremos fazer delas: um item numa lista pouco ou muito extensa; ou o resumo de um pedaço daquilo que nos faz grandes.
*(para os meus meninos de Cultura Ideologia e Mercado, que daqui a umas semanas já são "doutores". Parabéns! ^-^)
e andamos nós a criar uma filha para ist