Quinta-feira, 26.01.12

Tudo isto da PIPA, da SOPA e da ACTA, juntamente com a ideia peregrina do PL118 sobre os direitos de autor não são fogo de artifício. Não são coisas simples, como ouvi dizer, ou coisas não importantes que estão a ser alvo de um destaque exagerado.

São coisas preocupantes. São o princípio do fim da Internet, tal como a conhecemos.

 

Para uns, Internet é sinónimo de chat e Facebook. Para outros, é lugar para descarregar torrents, e ver filmes, e engatar miúdas ou intimidar miúdos. Para outros é um repositório de informação sempre crescente. 

Para mim, a Internet é liberdade.

Houve uma altura em que se constou que alguém/alguns pensavam indicar a Internet para o prémio Nobel da Paz. Na altura brinquei com o facto, e fui chamada à atenção por um amigo que me disse que a Internet, a rede, significava - para ele - aquilo que significa para mim agora: liberdade. Liberdade de comunicar, de partilhar, de trocar ideias. Liberdade de e para agir.

 

Se eu acho que quem produz, quem é autor, deve ser compensado pelo seu trabalho? Sim.

Se eu sou a favor da pirataria? Não. Corsários, piratas, buccaneers, só aqueles dos filmes a preto e branco, com o Errol Flynn. Não me identifico com actos de vandalismo, e por isso não admito que me defininam como crimisona. 

 

É o fim da rede como a conhecemos. Começa assim, com limitações (financeiras, éticas, do que seja), e depois avança. E, um dia, a rede - como nós a conhecemos, onde expressamos a nossa opinião por muito idiota que seja - vai terminar.

E os velhos do restelo vão bater palmas, e dizer que no tempo deles os livros e as cartas ligavam as pessoas, e que o lixo que é a rede se destruiu a si próprio.

Nesse dia eles vão rir de alegria. E nós vamos chorar pelo que perdemos.

 

(na rede cresce o movimento anti PL118. Os vários blogs que vão falando sobre este assunto encontram-se listados aqui)


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É sempre estranho quando a vida nos coloca, à frente, amigos que já foram há algum tempo e que entretanto deixaram de ser. Opções de vida diferentes, percursos diferentes, experiências diferentes. Pessoas diferentes.
(re)Encontrar amigos que não se vêm há muito é estranho. Já não somos o que éramos, já vivemos separados, aquilo que nos foi fazendo ser não é - impossível - aquilo que o outro viveu.

 

E fica a estranheza. O não saber como agir.

 


Como os legumes que se congelam e assim permanecem, frios e secos, definhando lentamente durante tempos e tempos, também as amizades congeladas - quando recuperadas - não voltam a ser o que eram. Perdeu-se algo. Perdeu-se tempo. Perdeu-se vida.

 

E sente-se a estranheza. O não saber como agir.

 


Tenta-se partir do ponto onde se ficou? Tenta-se, em dois ou três dedos (de conversa e de mão dada) voltar a fazer a ligação que havia antes? Volta-se atrás? Segue-se em frente?


Recuperar as ligações com pessoas que continuam importantes mas que deixaram de fazer parte é difícil, e delicado. Sente-se a obrigação de explicar, de esclarecer, de justificar, de quase pedir desculpa.
E pedir desculpa é sempre um mau início. É recomeçar onde não se parou.


Porque quando as pessoas são e fizeram parte de nós, continuaram a crescer connosco.

Mesmo que tenham deixado de fazer parte.

 


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Quinta-feira, 19.01.12

(O título deste post está "entre aspas" porque a ideia não é minha mas do Carlos, e está bem explicada no post que escreveu há dias. Contudo, e ao ler o que o Carlos escreveu, não consegui deixar de pensar e retomar uma questão que me vem ocupando o espírito há algum tempo: para que uso eu o Facebook? E o Twitter? E o SAPO Campus? E as outras redes onde estou a construir a minha identidade?)

 

 

Há uma ou duas semanas atrás delineei aquilo que seria uma proposta para um workshop (a ter lugar numa conferência que irá decorrer em 2012) sobre Identidade Digital e Reputação. Como não li o Call até ao fim, acabei por estar a trabalhar para o boneco e por não enviar nada. Fiquei, contudo, com um documento estruturado onde, em duas ou três ações, procurava incentivar os outros (e eu própria) a refletir sobre o que fazemos com/nos diferentes espaços por onde andamos.

Os passos eram simples, e resumem-se em duas ou três linhas:

- ponto de situação sobre a nossa presença online (onde estamos, em que espaços, com que finalidade usamos cada serviço/plataforma);

- partilha do resultado do exercício anterior + exercício de auto-reflexão: onde estou agora na rede (que perfil/identidade estou a construir) e onde gostaria de estar daqui a uns 3-5 anos;

- o que fazer (em termos de identidade na rede) para chegar lá.

 

Dito assim parece idiota, mas o draft era detalhado e em inglês até tinha pinta. Anyway, foi um exercício que me ocupou algumas horas e me deu uma boa dor de cabeça, na medida em que me levou a pensar naquilo que faço em cada um dos meus espaços e a repensar na identidade que ando a construir na rede.

Questionei-me, por exemplo, sobre o sentido de manter um blog pessoal quando este espaço, que era para ser académico, já tem textos sobre casacos e projetos e desenhos. Questionei-me sobre a importância dos contactos que tenho no meu FB, e pensei sobre o que me disse um dia a Sara Batalha quando afirmou que a gestão da nossa rede de contactos é de extrema importância, e que é nela e por ela que definimos a nossa área de influência. 

 

Pensei nisso tudo. E pensei no que aconteceu há dias, quando um vídeo feito por uma aluna e divulgado pelo Carlos passou, em poucas horas, de poucas para imensas visualizações. Na forma como a identidade que construímos na rede - e que eu defendo também ser definida pela nossa rede de contactos e pela forma como, através dela, conseguimos divulgar e projetar o nosso trabalho de formas que por vezes não conseguimos prever - pode ser utilizada não apenas para socializar mas para construir uma reputação em termos profissionais.

Pensei nisto tudo. Pensei como, às vezes - e como diz o Eminem :P - basta uma oportunidade, uma única oportunidade, para fazermos a diferença.

E pensei que seria giro, fazer um dia um workshop onde se falasse e refletisse sobre estas coisas. Se alguém se quiser juntar a mim na conversa (que pode ser 2.beer, 2.tea ou 2.hotChocolate)... o desafio está lançado :)

 

 

*o post foi editado de forma a estar de acordo com o novo acordo (com o qual não concordo, mas é assim a vida...)

 

 




Quinta-feira, 12.01.12

 

 

 

O novo ano já tem doze dias. Doze, uma dúzia, duas mãos mais dois dedos, metade das horas que fazem um dia, o mesmo número dos meses do ano. Os dias que, segundo o povo, prevêem o tempo que vai estar de Janeiro a Dezembro.

Doze.

E o que fiz eu nestes doze dias? Pouco ou nada, ou muito - depende da forma como quiser encarar as coisas. Se pensar nestes dias como um estágio (não daqueles em que nos fazem arquivar documentos e servir cafés quando devíamos estar a desenvolver aplicações ou a construir a base de uma profissão, mas daqueles que os jogadores de futebol - essas figuras de relevo que são aquilo que metade dos rapazes do mundo gostaria de ser um dia - fazem antes de um jogo importante (ou não importante, não importa, que importantes são eles, esses jogadores, e o resto nem interessa) foram bastante produtivos.

Mas já me perdi. Do que é que eu falava? Ah, sim, dos doze dias que o ano já tem.

Doze.

Caramba... se eu tivesse incluído nas resoluções de ano novo (que não fiz) a resolução de escrever uma página da tese por dia, já teria doze páginas. Ou melhor, já teria mais doze páginas, a adicionar aos conjuntos de doze que já tenho escrito. E, agora que penso nisso, devia ter feito essa resolução. Essa e muitas outras, daquelas que incluem cortar no café, fazer ginástica, deixar de escrever com tantos parênteses, comer mais brócolos e passar a usar vestidos.

Mas não tive tempo (as últimas doze horas do décimo segundo mês do ano passei-as a tentar controlar a febre da minha filha), nem pachorra. As resoluções tomam-se no dia a dia, taco a taco, e não nas últimas horas de um ano que, dali a pouco, vai deixar de ser presente.

 

Perdi-me de novo, não perdi? Pois.

Estava a falar do ano novo, e dos doze dias que já passaram. Do meu estágio de doze dias. Dos dias em que fui mãe, e enfermeira, e dei colo e mimo; dos dias em que fui filha e fiz o que as filhas fazem, que é conversar com os pais e fazer-lhes companhia, provando-lhes (como se isso fosse preciso) que continuam a ser uma das coisas mais importantes da nossa vida; dos dias em que fiz bolachas e biscoitos e percebi que até posso ser incapaz de fazer um bolo, mas que as minhas bolachas - feitas de farinha e mimo e risos da minha filha - são as mais deliciosas que já comi na vida.

 

Doze dias.

 

A partir de hoje, o décimo segundo dia do primeiro mês do ano de dois mil e doze, tenho um lugarzinho no "lounge" do Obvious. Ainda tenho de decidir o nome desse espaço - gavetas e caixas já tenho, e estou com vontade de ter uma coisa nova - e quero fazê-lo até à décima segunda hora da segunda parte do décimo segundo dia deste novo ano.

 

Se calhar vou-lhe chamar "doze".

O que dizem? :)

 




Quinta-feira, 15.12.11

 

 

Há dias em que a palavras são maiores do que nos dias comuns. São grandes, ocupam espaço; dias em que sinto que podia escrever tanta e tanta coisa que hesito, e não escrevo, por me sentir esmagada pela imensidão daquio que queria dizer.

São palavras que são coisas sentidas, que me definem e ao mesmo tempo me tornam mais do que aquilo que sou. 

 

 

                    amigos     ideias             chuva

                        Mariana   amor     

                                        tu         arte          quente       

                  letras          folhas

 

É olhar para a pedra grande e ver a obra que lá está escondida, e ficar parada com o cinzel na mão. É amar a tela em branco, perfeita, porque nela está escondidamente contida toda a beleza que o meu pensamento consegue compreender.

Nestes dias não escrevo, apenas junto letras que formam palavras que passam ideias ou conceitos. Escrever é mais do que encher linhas, é tornar visível 

 

                     o ar     

                                       a vida!            o sentimento 

 

escrever é materializar - e por isso mesmo definir e limitar - aquilo que, por ser imaterial, é infinitamente belo.

 

Gosto de escrever. Mas, hoje - porque me sinto esmagada e enamorada por aquilo que não me atrevo a dizer - prefiro deixar a folha em branco.

 

 

 




Terça-feira, 13.12.11

A noite passada sonhei com chuva. Não sei se foi por a estar a ouvir como som de fundo (caiu forte e bem nessa noite) ou se foi apenas porque gosto de chuva, mas o certo é que sonhei com ela.

No meu sonho, saí de uma sala (que não era a minha mas que, como a minha, tinha janelas altas com portadas brancas) e vim para fora, para uma espécie de varanda-rua que só existe no mundo onde vivemos quando estamos a dormir. E lembro-me, ainda, que a janela do meu sonho tinha muitos vidros, pequenos e limpos - é incrível como me consigo recordar destes detalhes e nunca me lembro onde deixei o carro -, e que se abriu para me deixar passar.

E andei à chuva. Não liguei a quem me olhava com ar espantado e virei o rosto para o céu, sem me preocupar com o rímel ou a sombra ou essas coisas todas que mesmo nos sonhos teimo em usar. E senti a chuva a molhar-me a cara e empapar-me o casaco preto que trazia vestido, correndo pelo pescoço como se essa fosse a coisa mais natural e mais agradável do mundo. E fechei os olhos. E senti-me bem.

 

Segundo os manuais dos sonhos que andam pela net, dançar ou caminhar à chuva significa mudança, bom presságio, coisa boa que está para vir. Até pode ser, não sei. Para mim, quer dizer que gosto de andar à chuva.

Mesmo que não goste de sentir os pés molhados.

 

 

 


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Sexta-feira, 18.11.11

Primeiro foi um post da Marta, no Facebook, com a ligação a um texto do Edson Athaide e do qual tomei a liberdade de selecionar uns parágrafos:

“Na tasca, a mesa ao lado é um coral de alarvidades. Uns gritam “Cão estúpido!”, outros gargalham, deixando ver entre os dentes os vestígios da ceia. Na TV, a repórter conta a história de um cão, em Rio de Mouro, que há semanas não sai da porta de um centro de saúde, a aguardar o regresso da dona (que, entretanto, morreu). 
Ok, cães chorosos podem ser piegas, mas o que haveria de tão ofensivo naquele relato a ponto de provocar tal rechaça nos presentes? Tristes tempos. Não nos emocionamos mais com as mazelas do homem, nem com as do melhor amigo do homem.
Assim, como que não quer nada, a insensibilidade vai se tornando o novo oxigénio (como o cinismo que expelimos no gás carbónico). Claro, há por aí, muitas pessoas sensíveis (várias delas escondidas, mascaradas de indiferentes). Porém, o bonito agora é mostrar-se inflexível, impenetrável, impermeável (boas qualidades para um chapéu de chuva, mas muito aquém daquilo que, há tempos, se considerava humano).

(...)

Deixou de haver a obrigação de ser gentil com o velhote empregado de mesa, com a caixa de supermercado de olhos tristes, com a senhora reformada que trabalha como mulher-a-dias para complementar o parco orçamento (aliás, já nem as mães e avós gozam de direitos garantidos no que toca a gentilezas). E, meu Deus, como hoje é caro dizer “bom dia”.
Precisava ser assim? Se a insensibilidade passou a ser um objectivo comum, vale lembrar que não há pessoa mais insensível do que um cadáver. Estamos a morrer antes do tempo.
Não sei como vai terminar a história, mas o rafeiro da linha de Sintra, na sua fidelidade canina, serve para nos recordar que, até mesmo enquanto animais, estamos a aceitar fasquias muito baixas.
Ou como diria o meu Tio Olavo: “Tire a sua insensibilidade do caminho que a minha poesia pretende passar”.

 

Depois, foi um link partilhado pela Sílvia, onde o JN contava o desfecho da história do "cão fiel": "Cão que esperou dias pela dona à porta do Centro de Saúde foi adoptado"

E depois foi este vídeo partilhado pelo Jorge:

 

 

E isto fez-me sentir bem.

Porque acredito que há bondade no coração das pessoas. Porque acredito que há pessoas más, mas também acredito que há pessoas boas, com força e vontade suficientes para mudar o mundo, nem que seja um bocadinho de cada vez.

Se quisermos, conseguimos.

Bom fim-de-semana!


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Segunda-feira, 14.11.11

 (texto escrito em Setembro, ainda antes da revolução orçamental, e publicado no jornal UniverCidade)

 

Parte I

Recordo-me ainda – embora tenha sido há quase vinte anos – do meu primeiro dia de aulas enquanto aluno da UA. Passei-o em frente a um armário para vassouras, no antigo CIFOP, convencida que aquela era a porta da sala onde deveria ter a minha primeira aula: durante horas eu e alguma colegas aguardámos, pacientemente, pela chegada do professor ou por alguém que trouxesse a chave para abrir a porta e podermos entrar.

Não sei bem em que altura percebemos que aquela porta não ia dar a lado nenhum – a não ser a um conjunto de esfregonas, baldes e vassouras – ou se foi alguém que nos disse que aquela não era propriamente uma sala de aulas. Mas sei que fiquei meio envergonhada meio danada com o facto de ter perdido uma manhã inteira de aulas e, mais ainda, com o sistema de numeração de salas e departamentos que a Universidade de Aveiro tinha decidido adoptar. Uma manhã de aulas. Uma manhã inteira de aulas.

Se não podia ter perguntado a alguém, indagado se a sala era realmente aquela? Podia. Mas transpirava caloirice por todos os poros e peças de vestuário, não havia (não é “não tinha”, é “não havia”, mesmo) telemóveis, nem twitter, nem facebook, nem nada. Quem queria saber perguntava. Quem não queria perguntar ficava assim, parado. Frente a um armário de vassouras, à espera que a vida acontecesse.

 

Parte II

Há um vídeo que tem corrido na Internet e que já tem mais de 360 mil visualizações. E não, não é o vídeo do Hélio (embora eu suspeite que, a este outro rapaz, o medo também seja uma coisa que “a ele não assiste”). Falo do vídeo do Prós e Contras, de 20 de Junho de 2011, onde o Miguel Gonçalves – numa intervenção no mínimo cativante – fala sobre o futuro, a empregabilidade, a experiência, os cursos e o mercado de trabalho. São cerca de 15 minutos cheios de ideias, de relatos de experiências, de afirmações feitas com convicção e certeza, 15 minutos que me deixaram a pensar que, realmente, a vida é feita de pequenas metas.

No entanto, e apesar de ter gostado do que vi, não posso concordar com tudo o que é dito pelo Miguel. Já trabalhei em muitos sítios, já passei por algumas empresas, e nesse percurso lidei com muitos tipos de pessoas: pessoas que reconhecem o valor de quem trabalha, pessoas que se preocupam apenas com o que terão de pagar pelo trabalho, pessoas que querem o melhor serviço ao menor preço. Pessoas que souberam engolir o orgulho e pessoas que o atiraram à cara dos outros, gratuitamente. Pessoas excessivamente conservadoras e pessoas com visão. Ele – o Miguel – conhece uma face da moeda, eu conheci outra. É a vida, neste caso a minha.

Mas não posso deixar de concordar com o que ele diz, quando afirma que um emprego precário não é um emprego que não dá garantias financeiras mas antes um emprego que não nos permite crescer. Quando diz que, cada dia, temos de trabalhar para evoluir. Para ficarmos mais perto daquilo que queremos ser.

 

Parte III

A experiência do meu primeiro dia de aulas na UA ensinou-me muita coisa, embora eu só me tenha apercebido disso muito mais tarde. Ensinou-me que não podemos ficar à espera que as coisas venham ter connosco, que nos temos de mexer, de nos envolver, de participar. De fazer parte de associações, de nos integrarmos em comunidades, de construirmos um percurso que – ainda que não saibamos bem onde vai dar – nos vai deixar mais perto daquele que pode ser o momento de viragem das nossas vidas.

Vivemos num tempo onde o imediatismo e a rapidez dos resultados são muito valorizados, muitas vezes até sobrevalorizados. Habituámo-nos a passar pela vida como quem sobe umas escadas, sempre a pensar onde queremos chegar e a contar os degraus que faltam para alcançarmos esse “onde”. E esquecemo-nos, nessa pressa, de ver que cada degrau vale por si. Que cada pedaço da nossa vida é uma experiência que nos leva a outra. Que cada linha do nosso CV - curriculum vitae, percurso de vida – não é só “mais uma linha”, mas é o resumo de uma experiência. Que nos ensinou algo, ou onde ensinámos algo. Que nos levou à linha seguinte. Que nos fez subir mais um degrau. Que nos deixou mais perto do patamar onde estamos hoje.

E a quem me diz “para ti é fácil falar, estás bem na vida”, sorrio. Porque já passei a barreira dos trinta e (já) não estou nos quadros de uma empresa. Porque não tenho um futuro certo. Porque estou num projeto de dois anos, sem saber muito bem o que irei fazer a seguir. Porque, numa altura em que nos dizem – e nós sabemos que é verdade – que o dinheiro custa mais que muito e temos de poupar e armazenar, e que um emprego certinho é tudo, decidi arriscar e investir na minha formação académica.

É um risco? É. Oh, se é. Mas é um risco consciente, e assumido. Porque fiz escolhas e agora estou a fazer o que gosto. E  estou mais perto daquilo que quero ser um dia.




Quinta-feira, 03.11.11

Um chá. Quente. Numa chávena que aquece primeiro os dedos, depois o sangue, e por fim a alma.

O aroma da cidreira ou dos frutos vermelhos - não importa. É cheiro, é calor, é pedaço da natureza que está lá fora e que - felizmente ? - os vidros não deixam entrar junto com a chuva e o frio.

E o frio... ah, o frio. Pouco, suficiente, daquele que é fresco sem ser gelo e que arrepia sem fazer tremer. Meias, de lã, dos pés até aos joelhos. E uma manta quente. Vermelha, como só o calor consegue ser.

 

Um livro? Pode ser. Mas só se não tiver figuras, porque o chá e o frio e as meias e a manta fazem nascer desenhos nos meus olhos e eu não quero esses desenhos - os do chá e do frio, que são meus - misturados com os desenhos de outros que não estão aqui, sentados comigo. 

Música? Não preciso :). Basta-me o som da água que o céu dá e o respirar lento, baixo e suave da fada que me descansa e que descansa no meu colo.

E isto é tudo o que eu preciso. E isto é tudo o que me faz feliz.


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 Mas gosto disto :)

 

 

 

Maybe I'm in the black, Maybe I'm on my knees
Maybe I'm in the gap between the two trapezes
But my heart is beating and my pulses start
Cathedrals in my heart


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